Produção Textual

A LÍNGUA ESTRANGEIRA NA ESCOLA PÚBLICA POPULAR: DILEMAS DO CONTEXTO DE ENSINO E DA PREPARAÇÃO DE PROFISSIONAIS

(Fichamento)


Por: Atila França de Campos, Thales de Souza Ferrarezi, Aline e Rejane

“Neste trabalho, apresentamos os resultados da pesquisa vinculada ao projeto intitulado Investigação na sala de aula como ponto de partida para propostas de projetos de ensino de Língua Estrangeira (LE), promovido pelo Programa de Apoio à Pesquisa e Extensão (PROAPE) da Associação Brasileira de Ensino Universitário (UNIABEU - Centro Universitário).” (p. 33)

“Cremos na importância de deixarmos bem claro nosso posicionamento diante de um estudo que analisa o contexto escolar de classes socialmente desprestigiadas. Nossa proposta tem relevância social, porquanto busca orientações para o ensino de LE a um grupo social que sofre a imposição de valores de uma minoria hegemônica e que detém o poder política e economicamente. Colocamo-nos a refletir a escola dos menos favorecidos e compreender seus dilemas, uma vez já reconhecida a imposição tradicional dos valores linguísticos e culturais de uma classe social, que excluem os dos oprimidos (cf. SIGNORINI, 1994, MOITA LOPES, 1996, SOARES, 1995)”. (p. 34)

“Além de reconhecimento das necessidades do ensino-aprendizagem em LE no contexto de escolas populares, existe aqui uma busca por justiça social, por trabalhar pela igualdade de oportunidade, pela formação de profissionais que saibam construir da escola um espaço de referências culturalmente múltiplas e justas, onde todos, não só os da cultura dominante, tenham assegurados seu dialeto e valores; por uma escola que ofereça referências sociais diversas e que seja lugar em que os alunos também reconheçam as bases pertinentes à classe a que pertencem. Logo, é um desafio da escola e dos professores levarem aqueles que não possuem as mesmas referências sociais de prestígio à posição de igualdade. Para tanto, a escola precisa entre seus agentes construir aliados, colaboradores para alcançar entendimentos que surjam de reflexões críticas” (p. 35)

“Entre os dilemas do ensino, reconhecemos as questões que apontam problemas na obtenção de coerência entre a teoria e a prática, no reconhecimento do aluno como sujeito e na utilização do ensino como ação interacionista de relevância para dentro e fora da escola (KLEIMAN, 1989). O ensino precisa estar fundamentado para uma função social, isto é, precisamos avaliar os objetivos da LE que pouco contribuem para a sociedade (MOITA LOPES, 1996).

No entanto, os desafios enfrentados pela escola pública popular fazem com que a realidade das sociedades atuais não seja percebida ao ponto de surgir interesse em aprender uma língua estrangeira conforme se observa a demanda mundial. Vemos o problema da falta de objetivos claros e práticos no ensino de LE, que definam na cabeça de professores e alunos o motivo de se ensinar e aprender uma língua estrangeira. Como dizem os PCNs, o ensino de uma língua estrangeira vai muito além da aquisição de um conjunto de habilidades linguísticas, pois promove uma 'apreciação dos costumes e valores de outras culturas e contribui para o desenvolvimento da própria cultura por meio da compreensão da(s) cultura(s) estrangeira(s)_ (BRASIL, 1998, p. 37).” (p.36)

“A necessidade urgente de formar indivíduos aptos para uma sociedade nos padrões atualmente estabelecidos pelo perfil da globalização faz ecoar a temática inclusiva dos sujeitos que vivem no âmbito das classes que não têm acesso aos recursos exigidos pelas sociedades do mundo atual. Repensamos na escola na séria função de prestar-se à inclusão dos pertencentes às classes economicamente subalternas em seu aspecto de cidadania.” (p. 37)

“Acontece que as razões que evidenciam a desigualdade social e a necessidade política de construção de igualdade de oportunidade para grupos de classes distintas são escamoteadas e invertidas num processo de inculcação de valores como sendo corretos e adequados àqueles que pertencem aos contextos socioeconômicos de prestígio. No final da história, são, enganosamente, apresentadas as 'deficiências, linguísticas e culturais dos alunos oriundos de classes desprestigiadas, deixando-os como responsáveis pelo seu insucesso na escola.” (p. 38)

“Não obstante dessa discussão, a compreensão das motivações de alunos e professores é evidenciada quando buscamos uma visão das condições do ensinar e do aprender. As realidades que cercam os elementos- chave do par ensino e aprendizagem, professor e aluno, têm sido discutidas nos meios acadêmicos há muito tempo. Entender como se ensinar e como aprender são pontos abrangidos por diversos estudos.” (p. 38)

“Uma das questões que podemos apontar é que o conhecimento, construído sobre a sala de aula no âmbito das pesquisas de pós-graduação, pouco consegue contribuir para intervir na realidade da sala de aula das escolas públicas populares. Análises científicas ficam reservadas aos estudos acadêmicos lato e stricto sensu, numa esfera inatingível das inteligibilidades sobre temas relacionados ao ensino popular, que não alcançam as salas de aula. Outra questão refere-se à formação de profissionais de língua, que são pouco preparados para construírem conhecimentos práticos a respeito dos contextos das escolas públicas populares.” (p.39)

“E quanto aos professores que já atuam nesse espaço, veem-se em uma condição de inoperância para articulações de projetos de integração e reflexões críticas sobre o contexto em que operam.” (p. 40)
“É urgente que propostas de estudos aplicados ao contexto de investigação compreendam os dilemas dos participantes e amparem as reflexões sobre as ações e promovam oportunidade de mudança e novos posicionamentos.” (p.40)

METODOLOGIA
“Nos moldes de uma pesquisa de diagnóstico, fizemos um levantamento de dados que orientou uma investigação em sala de aula do processo de ensino-aprendizagem e como ele se constituiu efetivamente na prática cotidiana dos grupos observados. Este momento foi importante para nortear o passo seguinte deste trabalho, na forma do segundo tipo de pesquisa adotado por este projeto, a de intervenção. Com o intuito de intervir no contexto investigado e gerar dados a partir dos resultados, propomos projetos iniciais para mudança das percepções dos agentes sobre o ensino de LE na escola pública e orientamos ações integradoras entre eles em regime de colaboração dos agentes da escola, a fim de que fossem oportunizadas novas informações sobre os processos de ensinar e aprender vistos de dentro da escola e não, como muito acontece, em propostas construídas fora dela para tão somente serem cumpridas.” (p. 40)


     “Nosso primeiro passo foi acompanhar quatro dos professores de LE da escola investigada (dos quais um era de língua francesa e os demais de língua inglesa) e registrar, através de anotações de campo, as aulas deles para identificar os pontos que entrariam na proposta dos projetos de ensino de interesse desta pesquisa. Foram acompanhadas turmas de níveis diferentes da educação básica, cinco turmas ao todo.” (p.42)

ANÁLISE DOS RESULTADOS
      “Os dados analisados são resultantes dos registros feitos em sala de aula, das entrevistas com os professores das turmas investigadas e dos questionários feitos com os alunos. A partir deles constatamos um abismo intercomunicativo que distancia professor e alunos em níveis variados de turma para turma, uma falta de interação, de compreensão de interesses e de articulação de propostas contextualizadas às comunidades atendidas. Dentro dessas condições, os participantes do contexto da sala de aula são levados a comprometer suas motivações quanto ao objetivo de ensinar e aprender a língua estrangeira.” (p.42)

“Para iniciarmos a exposição dos registros feitos em sala de aula, começaremos por um trecho de um dos registros de uma aula observada, cujo tipo de comportamento dos participantes foi recorrente em outras anotações de campo:”
'Um aluno bate com a cabeça na parede após outro tê-lo empurrado. Ele cai desacordado. A professora levanta-se de onde está e vai em direção ao aluno caído. Perplexa diz ao que empurrou 'olha só o que você fez!’. O aluno que está no chão pisca para os demais alunos da sala evidenciando, assim, a intenção em assustar a professora. Ela vê, percebe a brincadeira e, quando faz menção de falar algo a respeito da situação criada, recebe uma bolinha de papel nas costas.

Esta cena foi uma das constantes confusões que vivenciamos nas aulas de língua estrangeira. Buscamos assim entender as intenções que estão por trás de tais ações, compreender as relações dos participantes da sala de aula e propor reflexões.Perguntamos à professora de língua inglesa como ela se sentia no cumprimento de sua função e quais eram suas motivações. Ela nos respondeu sem muito pensar: e a necessidade. Referia-se ao contexto pessoal de sobrevivência, de quem não mais expõe positivamente sua motivação em ensinar LE e, por isso, não conseguia mais intervir com propostas diferentes para mobilizar os alunos para uma participação e aprendizado mais efetivos. “Essa percepção se esclarece quando falava, em resposta a outra pergunta, sobre quais outras estratégias construía para envolver os alunos (cf. comentário da fig. 3).” (p.42-43)

“A disciplina de LE obtém, de certa forma, na comparação com outras disciplinas, uma posição de inferioridade, percebida não apenas pelos alunos e pelos professores de outras disciplinas, com também no próprio contexto do currículo escolar. Sendo assim, falas como 'Dar nota baixa para o aluno em Língua Estrangeira! Se ainda fosse Português ou Matemática! ^ 'Mas Inglês não reprova, né?_ evidenciam a percepção discriminatória em relação à disciplina de LE, que não só partia dos alunos, mas também eraevidenciada nos conselhos de professores[...]” (p.44)

“Na continuidade da investigação, reconhecemos a necessidade de criar uma intervenção inicial para promoção de colaboração entre os agentes da escola, entre os pesquisadores e os professores de LE; entre estes e os professores de outras áreas, como também entre o grupo de apoio: direção, coordenação pedagógica e pais. Foi nesse momento que, com o apoio dos agentes da escola, construímos o projeto intitulado I Semana de Estudos de Língua Estrangeira na Escola, em que foram criados pelo pesquisador pequenos projetos para a valorização do ensino de língua estrangeira para o envolvimento e participação de todos os professores das diversas áreas de conhecimento do currículo escolar.” (p. 44)

“Temos registrado um dia em que a professora reinicia a correção de um exercício, e, ao mesmo tempo, os alunos começam a conversar sobre o 'Caso Eloá_ (um crime que aconteceu naquela semana em Santo André, São Paulo). A professora chama- lhes a atenção dizendo o que interessava naquele momento era a aula e não o que estava acontecendo lá fora. E insistindo, um aluno se expressou dizendo: 'Que é isso professora, esse cara merece morrer! O comentário não foi respondido e a correção do exercício continuou. Este dado ecoa no resultado do questionário passado na mesma turma em que se perguntou 'Qual tipo de ação você gostaria que o professor fizesse em sala de aula?_ e 72% da turma responderam que 'trouxesse novidades como filmes, músicas, jogos, assuntos da atualidade etc...” (p.45)

“Notamos que professores de LE se sentem isolados, largados à própria sorte de terem que se organizar para promover uma diretriz para o ano escolar, sem estabelecer pontos viáveis para concretização do aprendizado promovido, sem acompanhamento efetivo de suas propostas, sem colaboração de outros docentes. A exposição da visão crítica que têm sobre as condições do ensino não é ouvida e, no fim, vemo-los desmotivados, mais uma vez.” (p.49)

“As condições das escolas para o ensino de LE estão descriminadas nos PCNs (BRASIL, 1998, p. 21), que citam alguns fatores que dificultam o desenvolvimento linguístico das habilidades de ler, ouvir, escrever e falar, devido a classes lotadas, falta de recursos audiovisuais e material didático.” (p.49)
“É comum ouvirmos quem diga que a disciplina A é mais importante que a B, que disciplina C não reprova, que se a disciplina não faz parte do núcleo comum do currículo escolar, ela não tem tanta importância assim. Sabemos que a exposição em graus classificatórios de níveis de importância, que orienta posições de valor de um tipo de conhecimento em relação a outro tem fundamento nos parâmetros educacionais, mas refletem nos comportamentos e influenciam os interesses dentro da sala de aula.” (p.50)

“Com o objetivo de analisar a visão que o aluno da escola pública popular tem do ensino de LE, foi aplicado um questionário com diversas perguntas sobre a importância da disciplina, a opinião sobre as aulas e o grau de interesse pela mesma.” (p.51)
“Em uma das questões perguntamos sobre como percebiam a importância do aprendizado de LE para a formação deles. Tal questão foi orientada para que respondessem segundo a opinião que tinham e não o que simplesmente ouviam dizer. Quatro foram as possibilidades de escolha: a) não tem importância; b) tem pouca importância; c) é necessária, mas não sei para quê, e d) é importante para a formação do aluno e é fundamental para o mercado de trabalho.” (p.51)

“Com estes resultados, percebemos que apenas fazer que os alunos saibam que é importante e reconheçam na sociedade o valor da aprendizagem de uma segunda língua não é o suficiente para determinar uma postura de interesse deles em aprender uma LE. Os resultados iniciais no primeiro momento de investigação demonstram que a desvalorização da LE na própria escola configura um dado mais forte para a desmotivação do aluno em estudar outra língua.” (p.52)

"Ao perguntar aos alunos sobre a dificuldade em aprender uma língua estrangeira na escola, observamos um ponto que influenciou as respostas: o tipo de relacionamento entre alunos e professor. Pois em apenas uma das cinco turmas investigadas, que descreveu problemas de relacionamento com o docente, apontou em primeiro lugar (38% da turma) a relação que tem com professor como causa principal de seu problema de aprendizagem, contribuindo para destacar que 18% dos 161 alunos entrevistados pensam da mesma maneira.” (p. 53)

“Diante desse quadro, nossa proposta passou a ser, após essa fase inicial de análise e reflexões, organizar projetos de ensino em que articulassem diferentes disciplinas da escola e mobilizassem diversos agentes escolares, ou seja, criar contextos de participação e, por consequência, possibilidades de reflexão sobre tal ação. A proposta inicial é apresentar, primeiro, uma demonstração de como seriam os estudos multi, trans e interdisciplinares em prol do ensino de língua estrangeira através de uma semana de estudos para envolver e conscientizar todos os agentes da escola de que a parceria interna dela pode dar resultados positivos e prósperos.” (p.55)

“Chegamos à conclusão de que há um problema no ensino de línguas nas escolas e que não podemos ficar apenas no nível da compreensão do problema, é preciso intervenção. Para tanto, é preciso conhecer quais são os problemas existentes e que não sejam analisados à distância, apenas no nível inteligível das ações e dos comportamentos, mas que sejam vistos dentro da escola e da sala de aula com projeções de intervenção, vistas sob o olhar crítico, investigador e colaborativo de todos os agentes.” (p.56)

“Concluímos também que existe uma falta de conhecimento sobre as necessidades da escola pública popular no que se relaciona aos centros de formação de professores de LE. A ênfase no conteúdo teórico nos cursos superiores de licenciatura deixa uma lacuna na formação de docentes que estejam capacitados para atuarem nesse contexto. É preciso iniciativa para que se conheça mais a escola pública popular e capacite profissionais que sejam capazes de atuar de maneira articulada, assumindo a posição de professor crítico, reflexivo e pesquisador.” (p.57)



Bibliografia
Pesquisa em foco: PROAPE – pesquisa / Marcelo Mariano Mazzi (Org.) – 1. ed. – Belford Roxo: UNIABEU, 2013

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